{"id":1201,"date":"2019-06-30T11:54:18","date_gmt":"2019-06-30T14:54:18","guid":{"rendered":"http:\/\/neoprego.org\/?p=1201"},"modified":"2019-06-30T11:54:18","modified_gmt":"2019-06-30T14:54:18","slug":"cultura-de-uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-variou-ao-longo-de-3-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.neoprego.org\/pt_br\/cultura-de-uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-variou-ao-longo-de-3-mil-anos\/","title":{"rendered":"Cultura de uso de ferramentas por macacos-prego variou ao longo de 3 mil anos"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzindo aqui a \u00f3tima repostagem sobre o trabalho da Arqueologia Primata, que acaba de publicar um artigo descrevendo ferramentas de at\u00e9 3000 anos usadas pelos macacos-prego da Serra da Capivara.<\/p>\n<h1>Cultura de uso de ferramentas por macacos-prego variou ao longo de 3 mil anos<\/h1>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"attachment-post-thumbnail size-post-thumbnail wp-post-image\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/SITE_Ferramentas-0-1140px-abre.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-caption\">Macho adulto quebra castanha-de-caju, observado de perto por um jovem (<em>primeiro plano<\/em>) e uma f\u00eamea (<em>ao fundo<\/em>)<\/p>\n<p class=\"media-credits\">Tiago Fal\u00f3tico \/ USP<\/p>\n<\/div>\n<p>Enquanto arque\u00f3logos escavam o solo duro e seco da Caatinga no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piau\u00ed, em busca de vest\u00edgios do passado, macacos-prego logo ao lado usam pedras para quebrar cocos, sementes e castanhas-de-caju. Provavelmente de modo semelhante ao que fazem h\u00e1 pelo menos 3 mil anos, como revela parceria entre pesquisadores da Inglaterra e do Brasil. \u201cEles v\u00e3o se tornando um pouco primat\u00f3logos, enquanto n\u00f3s viramos um pouco arque\u00f3logos\u201d, conta o bi\u00f3logo Tiago Fal\u00f3tico, da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades da Universidade de S\u00e3o Paulo (EACH-USP), que coordenou as escava\u00e7\u00f5es mais recentes. H\u00e1 seis anos ele e seu antigo supervisor Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, trabalham em parceria com os arque\u00f3logos brit\u00e2nicos Michael Haslam e Tomos Proffitt, do University College London, na investiga\u00e7\u00e3o de como viviam os macacos. Descobriram que, assim como acontece hoje entre diferentes grupos de primatas, no passado a cultura de uso de ferramentas variou, como descreve artigo publicado nesta segunda (24\/6) na revista <em>Nature Ecology &amp; Evolution<\/em>. \u201c\u00c9 a primeira vez que se constata essa varia\u00e7\u00e3o cultural em registros arqueol\u00f3gicos de primatas n\u00e3o humanos\u201d, afirma Fal\u00f3tico.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos as escava\u00e7\u00f5es por l\u00e1 revelaram que os macacos-prego da serra da Capivara (<em>Sapajus libidinosus<\/em>) <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/07\/11\/macacos-prego-ja-usavam-ferramentas-no-periodo-pre-colombiano\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">j\u00e1 usavam pedras para quebrar castanhas-de-caju em tempos pr\u00e9-colombianos<\/a>. Chimpanz\u00e9s, que desbancaram o uso de ferramentas como caracter\u00edstica definidora dos seres humanos, j\u00e1 manejavam pedras h\u00e1 4 mil anos de acordo com escava\u00e7\u00f5es na Costa do Marfim, na \u00c1frica. Mas l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 sinais de que tenham alterado o comportamento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-292709 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/SITE_Ferramentas-3-1140px.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"784\" \/><\/p>\n<p>Os macacos-prego s\u00e3o ricos em varia\u00e7\u00f5es de comportamento, <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2017\/09\/22\/cultura-primata\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">que alguns especialistas chamam de culturas<\/a>. H\u00e1 grupos que usam pedras, outros preferem gravetos. Depende do tipo de alimento dispon\u00edvel em cada \u00e1rea, mas tamb\u00e9m do que os jovens de cada popula\u00e7\u00e3o aprendem com os mais velhos. Da mesma maneira, \u00e0 medida que foram escavando mais fundo \u2013 e regredindo no tempo \u2013 os pesquisadores encontraram varia\u00e7\u00e3o. O material depositado entre 2.400 e 3 mil anos atr\u00e1s revela o uso extenso de pedras pequenas, cheias de quebras causadas por impactos repetidos. Provavelmente eram usadas para processar alimentos menos duros do que castanhas-de-caju. \u201cHoje eles usam pedras semelhantes para quebrar sementes e frutos como os da mani\u00e7oba [<em>Manihot pseudoglaziovii<\/em>], uma planta da fam\u00edlia da mandioca\u201d, conta Fal\u00f3tico, que interpreta as marcas no material arqueol\u00f3gico com base no que os macacos fazem hoje. Infelizmente n\u00e3o foi poss\u00edvel detectar res\u00edduos dos alimentos nas pedras encontradas, mas ele ainda n\u00e3o desistiu. \u201cOutras \u00e1reas podem ter condi\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o diferentes que um dia nos permitam identificar res\u00edduos.\u201d<\/p>\n<p>Na fase seguinte, entre aproximadamente 565 e 640 anos atr\u00e1s, conforme data\u00e7\u00e3o de fragmentos de carv\u00e3o resultantes de queimadas e presentes no sedimento, os macacos ainda usavam pedras pequenas, mas j\u00e1 existiam mais bigornas \u2013 superf\u00edcies planas onde apoiam o alimento no momento da quebra. Mais recentemente, eles parecem ter come\u00e7ado a usar pedras maiores que permitem processar castanhas bem duras e disseminaram o uso de bigornas. Eles chegam a erguer acima da cabe\u00e7a pedras de cerca de 3 quilogramas, semelhante ao pr\u00f3prio peso. <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2012\/08\/21\/ramifica%C3%A7%C3%B5es-ancestrais-dos-macacos-prego\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tamb\u00e9m usam pedras para cavar e paquerar, entre outras utilidades<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-292717 size-large\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/SITE_Ferramentas-1-1140px-700x384.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"384\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel estabelecer os motivos dessa varia\u00e7\u00e3o no registro arqueol\u00f3gico. Ser\u00e1 que come\u00e7avam a desenvolver as t\u00e9cnicas e aos poucos foram descobrindo que funcionava e explorando fontes alimentares antes inacess\u00edveis? Ou grupos da mesma \u00e9poca j\u00e1 tinham costumes vari\u00e1veis, transmitidos de uma gera\u00e7\u00e3o para outra, e a escava\u00e7\u00e3o de outros s\u00edtios revelar\u00e1 uma diversidade cultural j\u00e1 nos tempos mais antigos? Ou, ainda, em certos momentos os alimentos dispon\u00edveis n\u00e3o exigiam maiores esfor\u00e7os? Todas s\u00e3o possibilidades plaus\u00edveis, embora a an\u00e1lise de amostras de p\u00f3len fossilizado revele que h\u00e1 7 mil anos j\u00e1 havia cajueiros na regi\u00e3o. N\u00e3o significa, por\u00e9m, que estivessem constantemente em todos os lugares, pode ter havido varia\u00e7\u00e3o na abund\u00e2ncia dessa \u00e1rvore.<\/p>\n<p>O trabalho \u2013 dos macacos no manejo das pedras e das pessoas que os estudam \u2013 continua, e Fal\u00f3tico divide seu tempo de trabalho de campo entre as escava\u00e7\u00f5es e a observa\u00e7\u00e3o do comportamento atual. \u201cGosto mais de seguir os macacos do que de ficar agachado cavando\u201d, confessa. Ele tem se concentrado em estudar os padr\u00f5es das lascas obtidas pela quebra das pedras batidas umas contra as outras, que alguns anos atr\u00e1s se mostraram <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/10\/20\/fragmentos-produzidos-por-macacos-poem-em-duvida-artefatos-de-pedra-lascada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">indistingu\u00edveis daquelas produzidas pelos homens das cavernas<\/a>. A regi\u00e3o, onde registros da ocupa\u00e7\u00e3o humana podem <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2017\/09\/22\/homo-sapiens-no-centro-da-america-do-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estar entre os mais antigos do continente<\/a>, ainda parece ter muito a revelar sobre as atividades de pessoas e macacos ao longo de milhares de anos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-292705 size-full\" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/SITE_Ferramentas-2-1140px.jpg\" alt=\"\" width=\"1140\" height=\"760\" \/><\/p>\n<p>\u201cPode haver s\u00edtios ainda n\u00e3o encontrados relacionados a primatas\u201d, diz a arque\u00f3loga Mercedes Okumura, do Instituto de Bioci\u00eancias da USP, que n\u00e3o tem conhecimento de outro s\u00edtio compar\u00e1vel em termos de documenta\u00e7\u00e3o de arqueologia envolvendo tanto seres humanos como outros primatas. Ela \u00e9 coautora de um artigo publicado em 2018 na revista <em>Quaternaire<\/em> que descreve a forma\u00e7\u00e3o das camadas arqueol\u00f3gicas do boqueir\u00e3o da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, levando em conta as contribui\u00e7\u00f5es de pessoas e macacos (contou para isso com acesso aos dados do grupo de Fal\u00f3tico). Entre os achados das escava\u00e7\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil dizer quem produziu as lascas mais simples, ela conta, mas atribui com seguran\u00e7a a seres humanos estruturas mais complexas de pedra lascada. Ela v\u00ea como frut\u00edfera a rela\u00e7\u00e3o com os arque\u00f3logos-primat\u00f3logos. \u201cMe refiro realmente a uma via de m\u00e3o dupla: quem faz arqueologia \u2018humana\u2019 pode aprender muito tamb\u00e9m ao estudar esses casos relacionados a outros primatas.\u201d<\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><strong>Projetos<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. <\/strong>Uso de ferramentas por macacos-prego (<em>Sapajus libidinosus<\/em>) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradi\u00e7\u00f5es comportamentais (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/85865\/uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-sapajus-libidinosus-selvagens-ecologia-aprendizagem-socialm\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 2014\/04818-0<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2014 Tem\u00e1tico; <strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong> Eduardo Benedicto Ottoni (USP); <strong>Investimento<\/strong> R$ 611.005,29.<\/p>\n<p><strong>2. <\/strong>Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradi\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/146004\/uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-aprendizagem-e-tradicao\/?q=2013\/05219-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 2013\/05219-0<\/a>); <strong>Modalidade<\/strong> Bolsa de p\u00f3s-doutorado; <strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong> Eduardo Benedicto Ottoni (USP); <strong>Benefici\u00e1rio<\/strong> Tiago Fal\u00f3tico; <strong>Investimento<\/strong> R$ 423.450,88.<\/p>\n<p class=\"bibliografia\"><strong>Artigos cient\u00edficos<\/p>\n<p><\/strong>FAL\u00d3TICO, T. <em>et al<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-019-0904-4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Three thousand years of wild capuchin stone tool use<\/a>. <strong>Nature Ecology &amp; Evolution<\/strong>. <em>on-line<\/em>. 26 jun. 2019.<\/p>\n<p>PARENTI, F. <em>et al<\/em>. <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/quaternaire\/10313\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Genesis and taphonomy of the archaeological layers of Pedra Furada rock-shelter, Brazil<\/a>. <strong>Quaternaire<\/strong>. v. 29, n. 3, p. 255-69. nov. 2018.<\/p>\n<p><a class=\"cc-republish\" href=\"\/wordpress\/#cc-republish\" rel=\"prettyPhoto\">Republicar<\/a><\/p>\n<p>Este texto foi originalmente publicado por <a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/\">Pesquisa FAPESP<\/a> de acordo com a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nd\/4.0\/\"> licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND<\/a>. Leia o <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2019\/06\/24\/cultura-de-uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-variou-ao-longo-de-3-mil-anos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">original aqui<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzindo aqui a \u00f3tima repostagem sobre o trabalho da Arqueologia Primata, que acaba de publicar um artigo descrevendo ferramentas de at\u00e9 3000 anos usadas pelos macacos-prego da Serra da Capivara. 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